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domingo, 15 de janeiro de 2017

Aulas online, um novo rumo ou uma miragem?

Aulas online, educação musical pela internet.

Isso pode dar certo?

Quando falamos em educação, estamos entrando numa zona dos relacionamentos humanos de grande profundidade, falamos de algo que exige um trato pessoal indispensável. Isso pelo fato de estarmos discutindo não somente o processo de aquisição de conhecimentos, mas também o importante processo de formação de uma personalidade e consequentemente a formação de uma identidade profissional e artística, no caso dos futuros músicos.

O mais intrigante nessa nova plataforma "online", é o como resolver o problema da vocação, já que é notório e fato que muitos daqueles que aderem a esse tipo de solução não conseguem cantar ou tocar uma melodia regidos pelo pulsar de um metrônomo ou até mesmo no tom certo... citar Villa Lobos... . Vejo, claramente, os métodos mencionado muitas soluções tais como: "saiba o segredo dos grandes mestres", "faça você mesmo, método sem professor", "aprenda fácil e sem professor". Como se tocar uma música fosse uma receita de culinária. Identifica-se uma possível forma de alienação, já que eles mesmos, digo os autores dos métodos online, passaram pelo velho e tradicional "professor de música" e, claramente, por todo aquele processo de treinos e repetições.

Tocar ou cantar não é algo do outro mundo, mas a questão se complica quando incluímos nesse contexto a tal da partitura. Isso muda tudo! Até pouco tempo atras tudo não passava de mera tradição oral, onde uma nova geração aprendia com seu ancestral mais próximo.

O surgimento de uma escrita, no caso a partitura, trouxe consigo um conjuntura de conhecimentos científicos combinados que se desenvolveram ao longo dos séculos, dando origem a uma linguagem, uma forma de comunicação capaz de expressar não somente palavras e ideias de vários idiomas e culturas, mas também o sentimento e as sensações dessas palavras e ideias de uma maneira nunca vista na história da escrita.

A internet tem desempenhado uma papel fundamental na educação, através dela é possível armazenar e disseminar todo conhecimento já pesquisado, é uma incrível ferramenta de comunicação em tempo real. Por outro lado, não substitui o trato pessoal, o sentir pessoalmente, e é justamente nesse ponto que encontramos uma falha no processo de formação de novos músicos, principalmente àqueles com certas dificuldades motora e cognitiva.

Em outras palavras, a internet é uma importante ferramenta no processo educacional, mas têm sido tratada como fonte única do saber, deixando de lado muitas vezes o olhar clínico de um professor de música. Olhar esse que é carregado de sentimentos, treinado para vislumbrar, corrigir os movimentos e as interpretações mau executados. O professor de música, além de saber como se toca, tem a habilidade, o dom do ensino. Uma máquina ou um sistema jamais irá fornecer um método que exemplifique e ao mesmo tempo faça correção com um olhar humanizado.

Existe a grande possibilidade de ocorrer o desaparecimento de toda uma habilidade, já que na atualidade tenho notado que as pessoas têm dado preferência à coisas superficiais. Na música, claramente é fácil decorar, imitar, simplesmente reproduzir, todavia compreender todo seu funcionamento é um feito para poucos, principalmente em países subdesenvolvidos.

Estamos vivendo uma era de declínio musical. A música popular tem passado pelo seu período mais tenebroso e pobre. Isso é notado pelo grau de superficialidade das letras e melodias das canções atuais, cuja preocupação está focada na venda de títulos obscenos, que levam uma geração inteira a idolatrar artistas totalmente equivocados no que se refere ao ser "músico".

Na educação, a música foi abandonada, os professores são tachados de chatos, velhos e desatualizados. Existe um abismo entre a população e o conhecimento erudito, cujo acesso é claramente elitizado.

Estamos perdendo o bonde do conhecimento musical, todo trabalho que resultou na construção de uma fantástica linguagem musical será deixada dentro das academias dos grandes centros, isso limitará o acesso a população menos afortunada.

Bem, sem mais delongas, essa problemática é extensa e complicada. Que tal ler um bom livro (Bohumil Med, Osvaldo Lacerda), ouvir um professor velhinho, beber em fontes de conhecimento realmente vivas ao invés de interagir com máquinas e sistemas?

O conhecimento foi gerado no passado através das relação humanas, seria sábio substituir os relacionamentos humanos por intervenções tecnológicas estáticas?

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